Alta influência, pré-temporada de luxo e estrutura de grande: de onde vem o poder do Boavista?

07/01/2019 - Reportagem: Globoesporte.com


As noticías sobre problemas financeiros no futebol do Rio têm sido constantes nos últimos anos. Com a exceção do Flamengo, os outros três grandes clubes cariocas encontram dificuldades para manter as contas em dia e fazer investimentos altos. A realidade, claro, é a mesma nos times pequenos do estado. Mas uma modesta equipe do interior vai na contramão disso tudo.

Boavista se prepara para o Carioca nos Emirados Árabes pelo segundo ano seguido — Foto: Eduardo Peralta/Boavista

No fim de novembro, o Boavista acertou a contratação do veterano Carlos Alberto. A notícia, claro, repercurtiu, mas uma informação chamou ainda mais a atenção de muitos: o jogador embarcou junto com o grupo para os Emirados Árabes, onde o clube de Saquarema se prepara para o Campeonato Carioca pelo segundo ano seguido.

Já neste fim de semana, o ex-atacante italiano Christian Vieri postou uma foto usando uma camisa de uma torcida do Boavista, clube pelo qual tem uma antiga relação.

Por conta disso, o GloboEsporte.com decidiu explicar alguns motivos que levam o clube de Saquarema a ser um ponto fora da curva para a realidade dos clubes de menor investimento e a ter tanta influência no meio do futebol carioca.

Gestão
O Boavista surgiu do antigo e tradicional Esporte Clube Barreira, fundado na década de 1961 e que ficou praticamente inativo no início dos anos 2000.

Em 2004, o clube passou a ser administrado pela tradicional família Magalhães Lins, dos irmãos João Paulo e Zé Luca, que morreu em 2012 – vítima de um câncer. A nova administração, com investimentos privados, rendeu um resultado imediato para o Boavista: em 2007 chegou à primeira divisão do Rio, de onde nunca mais saiu.

Conhecido por chegar de helicóptero nos jogos do Boavista em casa, no Estádio Elcyr Resende, João Paulo é atualmente o responsável pela gestão do clube e tem como braço direito o ex-goleiro Thiago Alves, diretor de futebol e homem de confiança do empresário.

“A importância do nosso João Paulo para o Boavista é a mesma do coração para o corpo humano. Ele é tudo para esse clube, participa de tudo”, disse Thiago Alves.

Estrutura
Apesar da sede do Boavista ser em Bacaxá, distrito de Saquarema, na Região dos Lagos do Rio, o clube treina na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A equipe tem, desde 2016, uma parceria com o CT do CFZ, que pertence a Zico.

Além disso, o clube também utiliza, tradicionalmente, a belíssima sede da Confederação Brasileira de Vôlei em Saquarema na reta final da preparação do Carioca.

Os jogos do clube são realizados no Estádio Elcyr Resende, fundado em 1955 e que pode receber até 10 mil torcedores. Apesar da aparência simples, o local comporta todas as necessidades do Boavista, incluindo jogos contra os grandes do Rio.

A estrutura do clube, aliás, é costumeiramente elogiada e comparada a de clubes grandes por atletas e membros da comissão técnica, principalmente por conta dos salários em dia. A folha salarial, inclusive, é uma das mais altas entre os clubes pequenos.

– O Boavista procura investir integralmente a receita de TV na estrutura física, na contratação do elenco, na logística para toda temporada, enfim. Um planejamento com as melhores condições para os profissionais que aqui se encontram – afirma o diretor Thiago Alves.

Pré-temporada de luxo
Em 2017, o Boavista pela primeira vez na história viajou para o exterior. Por meio de uma parceria com a empresa Pantera Sport, do ex-jogador Donizete Pantera, o clube escolheu Dubai, nos Emirados Árabes, para fazer a pré-temporada.

A viagem, no entanto, só foi viabilizada por conta da amizade de João Paulo com a família real de Xarja, terceira maior cidade dos Emirados Árabes.

Assim como em 2017, o Boavista repetiu a dose neste ano e tem se preparado no país para o estadual de 2019. O clube chegou por lá em 3 de dezembro e permanecerá até a próxima quinta-feira.

Influência no futebol
A relação de João Paulo com personalidades dos Emirados Árabes é só uma das muitas do gestor do Boavista. A influência do empresário, inclusive, reflete diretamente no clube de Saquarema. Afinal, nos últimos anos o Verdão contratou diversos nomes conhecidos, atraídos muitas vezes pela amizade com o gestor.

Só nos últimos anos vários “medalhões” estiveram no Boavista: Fellype Gabriel, Júlio César, Renato Silva, Luiz Alberto, Leandrão, Antônio Carlos, Reinaldo, além do técnico Joel Santana.

– Apareceu o convite do Boavista, sou muito amigo do João Paulo e do Thiago. Eles têm uma estrutura que poucos times brasileiros têm. Não devem nada a ninguém. Treinam em campo bom, ficam em hotéis ótimos, tem um estádio próprio, uma gestão que surpreende positivamente. Quando jogador recebe o convite, eles vão na hora, tanto que já passaram jogadores renomados por. O mês lá tem 30 dias – disse Reinaldo, ex-atacante de Flamengo, São Paulo, Santos, Botafogo e PSG.

O caso mais emblemático é do ex-atacante Christian Vieri. Ex-jogador da Inter de Milão, da Juventus, do Milan e da seleção italiana, ele é amigo pessoal de João Paulo e quase defendeu o Boavista no Carioca de 2011.

Vieri chegou a se apresentar ao Boavista, mas um problema pessoal o impediu de vestir a camisa do clube de Saquarema na ocasião. No último sábado, ele postou uma foto com a camisa do Verdão em uma rede social e animou os torcedores.

Nova surpresa?
Neste ano, o Boavista surpreendeu no Campeonato Carioca e chegou à decisão da Taça Guanabara contra o Flamengo, mas acabou perdendo por 2 a 0 no Espírito Santo.

Para 2019, o clube manteve a base desta temporada: terá, por exemplo, o goleiro Rafael (ex-Vasco e Fluminense), o zagueiro Gustavo Geladeira (ex-Flamengo), o meia Lucas Perdomo (ex-Vasco) e o atacante Leandrão (ex-Vasco, Botafogo e Internacional).

Os principais reforços são: o zagueiro Rafael Marques (ex-Vasco, Botafogo e Atlético-MG), o atacante Pachu (emprestado pelo Botafogo) e o meia Carlos Alberto, rodado por clubes como Fluminense, Porto, Corinthians, Vasco, entre muitos outros.

Rumo à Série B?
O Boavista disputará em 2019 a Série D do Brasileiro pela quarta vez. Nas edições anteriores, o clube não fez investimentos para a competição e não priorizou o campeonato nacional.

Responsável pelo futebol do clube há anos, Thiago Alves garante que o objetivo do Boavista, no entanto, é estar na Série B do Brasileirão muito em breve. O investimento, inclusive, deve ser maior nesta temporada. O Verdão ainda terá pela frente a Copa do Brasil e vai encarar o Figueirense na primeira fase.

– O Boavista possui um planejamento estratégico feito por mim. A nossa meta é chegar na Série B até 2022. Estamos trabalhando para isso – garante.